Se houver entre os
ouvintes alguém que tenha mandado a uma pessoa amiga
rosas em sinal de afeição ou as tenha recebido como
lembrança, apreciará certamente esta história duma
prece.
A humanidade sempre
uniu instintivamente as alegrias e as rosas.
Os pagãos coroavam
as suas estátuas com rosas, como símbolos da oferta
dos seus corações.
Os adeptos da
Igreja, nos seus primórdios, substituíram as rosas
pelas orações.
Nos tempos dos
primeiros mártires digo,
"primeiros" porque a Igreja tem hoje mais
mártires do que tinha nos primeiros quatrocentos
anos quando as jovens virgens caminhavam sobre
a areia do Coliseu ao encontro da morte, vestiam-se
com belos vestidos e adornavam a sua fronte com
coroas de rosas, por irem jubilosas ao encontro do
Rei dos Reis, pelo qual morriam. Os cristãos, depois
de anoitecer, recolhiam as suas coroas de rosas e
sobre estas oravam, rezando a cada rosa uma oração.
No longínquo
deserto, os Egípcios, os anacoretas e os eremitas
contavam também as suas orações sob a forma de
pequenos grãos reunidos à maneira de coroa.
Maomé adotou esta
prática para os seus maometanos.
Do costume de se
oferecerem ramos espirituais, nasceu uma série de
orações conhecida por rosário, pois rosário
significa "coroa de rosas".
Desde os primeiros
dias que a Igreja pede aos fiéis: recitem os 150
salmos de Davi. Este uso conserva-se ainda em vigor
entre os sacerdotes, porque são obrigados a recitar
estes salmos que fazem parte do Breviário que rezam
todos os dias.
Mas não é fácil
para todas as pessoas recordar os cento e cinqüenta
salmos. Além disso, antes da invenção da imprensa,
era difícil encontrar-se um livro.
Eis porque alguns
livros importantes como a Bíblia estavam
acorrentados, à maneira das listas telefônicas nas
estações ferroviárias; de contrário
furtá-las-iam.
O fato de a Bíblia
estar acorrentada fez nascer a estúpida mentira de
que a Igreja não queria permitir a ninguém que a
lesse. Afinal, ela estava presa para que as pessoas a
pudessem ler e consultar. Também a lista dos
telefones está presa, e no entanto é um dos livros
mais largamente consultados nas sociedades modernas.
As pessoas que não
podiam aprender os 150 salmos, quiseram fazer
qualquer coisa que pudesse, de algum modo, substituir
esta prática.
E substituíram-nos
por 150 "Ave-Marias", subdivididas em
quinze dezenas.
Cada uma das dezenas
devia ser recitada ao mesmo tempo que se meditavam os
vários aspectos da vida de Nosso Senhor. Para se
manterem as dezenas separadas, cada uma principiava
por um "Pai Nosso", e terminava com um
"Glória", em louvor da Santíssima
Trindade.
São Domingos, que
morreu em 1221, recebeu de Nossa Senhora a ordem de
pregar e popularizar a devoção em sufrágio das
almas do purgatório, pela vitória sobre o mal e
pela prosperidade da Santa Madre Igreja, e assim nos
deu o rosário na sua forma atual.
Já se tem objetado
que há muitas repetições no rosário, e que o
"Pai-Nosso" e a "Ave-Maria", à
força de repetidos, tornam-no monótono.
Isto faz-me lembrar
o caso duma mulher que veio procurar-me uma tarde;
depois da preleção.
Disse-me: "Eu
jamais me tornarei católica. Vós dizeis e repetis
sempre as mesmas palavras no rosário, e quem repete
as mesmas palavras não é sincero. Eu nunca
acreditarei em tal pessoa. Tampouco Deus acreditará
nela".
Perguntei-lhe quem
era o homem que a acompanhava.
Respondeu-me que era o seu noivo.
Perguntei-lhe ainda: "Ele gosta de si?"
"Oh! muito!"
"Mas como o sabe?"
"Disse-mo ele".
"Então como foi que lho disse?"
"Disse-me: amo-te".
"Quando lho disse?"
"Há de haver uma hora".
"Já lho tinha dito antes?"
"Já. Ainda ontem à noite".
"Que lhe disse ele?"
"Amo-te".
"Mas não lhe tinha já dito antes disso?"
"Diz-mo todas as noites".
Respondi-lhe:
"Não acredite. Ele que repete, é porque não
é sincero".